POR QUE SOFREMOS? UM OLHAR ESPÍRITA SOBRE A DOR
A dor e o sofrimento fazem parte da existência humana. Desde os tempos mais remotos, o ser humano busca compreender por que sofre, qual o sentido da dor e como superá-la. O Espiritismo, codificado por Allan Kardec a partir dos ensinamentos dos Espíritos Superiores, oferece uma visão consoladora e profunda sobre essas questões, iluminando os caminhos da alma com esperança e responsabilidade.
A dor e o sofrimento fazem parte da existência humana. Desde os tempos mais remotos, o ser humano busca compreender por que sofre, qual o sentido da dor e como superá-la. O Espiritismo, codificado por Allan Kardec a partir dos ensinamentos dos Espíritos Superiores, oferece uma visão consoladora e profunda sobre essas questões, iluminando os caminhos da alma com esperança e responsabilidade.
Segundo a Doutrina Espírita, a dor não é castigo divino, mas sim um instrumento pedagógico da vida. Em O Livro dos Espíritos, os Espíritos nos ensinam que o sofrimento pode ter duas causas principais: ou é consequência direta de nossas ações nesta vida (a dor como resultado natural de nossas escolhas) ou provém de experiências assumidas antes da encarnação, como parte de um processo de aprendizado e reparação.
Neste sentido, a dor tem um papel educativo. Ela nos chama à reflexão, nos leva a reavaliar posturas, fortalece a fé e desperta sentimentos mais elevados. É, muitas vezes, através do sofrimento que o Espírito amadurece e aprende as virtudes da paciência, da resignação e do amor.
Sofrimento: expiação ou provação?
O sofrimento humano sempre gerou inquietações: por que há tanta dor no mundo? Por que uns enfrentam mais dificuldades do que outros? O Espiritismo, com sua proposta consoladora e racional, esclarece que nada é fruto do acaso. Toda dor tem uma causa e todo sofrimento, um sentido.
O Espiritismo diferencia o sofrimento como expiação — quando é consequência de faltas do passado que precisam ser reparadas — e como provação, quando serve de teste para fortalecer o Espírito em sua evolução. Em ambos os casos, a dor é oportunidade: de crescimento, de superação, de reconciliação com as leis divinas.
A expiação é, segundo os Espíritos superiores, a consequência de erros cometidos em existências anteriores. Trata-se de uma oportunidade de reparação, não de castigo. Deus, sendo soberanamente justo e bom, não pune: educa. Quando sofremos por situações que não conseguimos explicar racionalmente, muitas vezes estamos passando por expiações necessárias ao equilíbrio da Lei de Causa e Efeito. Não se trata de punição, mas de reajuste e aprendizado. A dor, nesse contexto, é oportunidade de regeneração.
Kardec, em O Livro dos Espíritos, (LE) pergunta na questão 258:
Quando na erraticidade, antes de começar nova existência corporal, tem o Espírito consciência e previsão do que lhe sucederá no curso da vida terrena?” E os Espíritos respondem: “Ele próprio escolhe o gênero de provas por que há de passar, e nisso consiste o seu livre-arbítrio”.
Diante disso, Kardec ainda questiona: “Não é Deus, então, quem lhe impõe as tribulações da vida, como castigo?” Ao que os Espíritos esclarecem:
Nada ocorre sem a permissão de Deus, pois foi Ele quem estabeleceu todas as leis que regem o universo. Deus permite, porém, que o Espírito escolha sua rota, como permite que o homem escolha entre o bem e o mal. Se este sofre por ter feito uma má escolha, não deve queixar-se senão de si mesmo.
Essa resposta é fundamental para compreendermos que Deus, em sua justiça e misericórdia, não castiga, mas educa e respeita a liberdade de cada Espírito. O sofrimento, portanto, é consequência natural das escolhas que fazemos — tanto nesta vida quanto em outras.
O Espírito suportando suas provas com coragem, resignação e confiança na justiça divina avança no caminho da evolução. Como reforça a questão 262, essas escolhas são feitas “conforme o grau de perfeição a que já chegou” o Espírito, que busca nas provações “servir de exemplo” e acelerar seu progresso.
Além da expiação, existe também a provação, que é um tipo de desafio escolhido pelo Espírito com o intuito de se aperfeiçoar. Nem todo sofrimento é resultado de uma falta passada; muitas vezes, é uma prova necessária ao amadurecimento espiritual. Provas vêm para desenvolver virtudes como a paciência, a humildade, a fé e a perseverança.
Esse entendimento transforma profundamente a maneira como passamos a encarar o sofrimento. A dor deixa de ser percebida como algo inútil ou injusto e passa a ser compreendida como uma etapa necessária no processo de regeneração e crescimento do ser imortal.
Nesse mesmo horizonte, a provação se apresenta como um tipo de desafio assumido pelo Espírito antes da reencarnação, com o objetivo de desenvolver virtudes e acelerar seu progresso moral. Como esclarece o LE, na questão 132 “Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos? Resposta:
Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. [...] É ainda um meio de pô-los em condições de suportar a parte que lhes toca na obra da criação. [...] Para uns é expiação, para outros missão. [...]. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso e que está a expiração.
Essa resposta sintetiza de maneira profunda o sentido espiritual da vida terrena. A encarnação não é um castigo, mas uma ferramenta indispensável ao progresso do Espírito. Ao afirmar que Deus nos impõe a experiência corporal para alcançar a perfeição, a Doutrina Espírita nos convida a olhar para as dificuldades da vida sob uma nova perspectiva: cada desafio, cada dor, cada renúncia pode representar uma oportunidade de crescimento interior. Para uns, essa trajetória será marcada por expiações, necessárias à reparação de faltas pretéritas; para outros, por missões, que fortalecem e iluminam caminhos alheios. Em todos os casos, o sofrimento assume uma função educativa e regeneradora, revelando a justiça e a misericórdia de Deus, que nos oferece as experiências exatas de que precisamos para evoluir.
A Justiça Divina e as Novas Oportunidades: A Sabedoria da Reencarnação
Se a questão 132 nos mostra que a encarnação é o caminho natural para o progresso dos Espíritos, é na questão 171 de O LE que encontramos o fundamento moral da reencarnação como expressão da justiça e da misericórdia divinas.
Na justiça de Deus e na revelação, pois incessantemente repetimos: o bom pai deixa sempre aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento. Não te diz a razão que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o melhorarem-se? Não são filhos de Deus todos os homens? Só entre os egoístas se encontram a iniquidade, o ódio implacável e os castigos sem remissão. (LE, questão 171)
Essa resposta aprofunda ainda mais o entendimento de que Deus jamais impõe sofrimentos eternos. Pelo contrário, como um Pai amoroso e justo, Ele oferece a cada um de seus filhos inúmeras oportunidades de recomeço, respeitando os limites e possibilidades individuais.
A reencarnação, portanto, não é apenas uma necessidade evolutiva — é também a prova da bondade divina em ação, permitindo que nenhum Espírito seja condenado para sempre, e que todos, sem exceção, possam construir seu caminho em direção à luz. A pluralidade das existências, longe de ser um castigo repetido, é o recurso pedagógico sublime de Deus para que cada um possa, no tempo certo, desenvolver suas potencialidades e se tornar digno da felicidade verdadeira.
Esse entendimento elimina o medo do castigo eterno e o sentimento de culpa paralisante. Em seu lugar, instala-se a confiança num Deus que ensina, espera e acolhe — sempre oferecendo novas chances por meio da vida, do arrependimento e do esforço contínuo no bem.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo V, intitulado "Bem-aventurados os aflitos", encontramos uma das reflexões mais consoladoras da Doutrina. Kardec afirma que as aflições presentes não são punições de Deus, mas lições necessárias ao progresso do Espírito. Em seus comentários ao item 3, lemos: Logo, as vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa. Esse entendimento nos liberta da revolta e do desespero. Sofrer, então, não é estar abandonado, mas ser acompanhado pela justiça e misericórdia divinas em nossa jornada de evolução.
No livro O Céu e o Inferno, Allan Kardec apresenta dezenas de relatos de Espíritos que, após a morte, descrevem suas situações felizes ou dolorosas no plano espiritual. Entre eles, há aqueles que confessam estar em sofrimento por faltas cometidas na Terra — e, com isso, testemunham a realidade da expiação. Outros, ainda, relatam o alívio e a libertação que vieram após encarar com fé e resignação as provas que enfrentaram em vida. Esses testemunhos reforçam a ideia de que nada escapa à justiça divina, mas que esta justiça está sempre unida à bondade, permitindo recomeços, aprendizados e transformações.
Importante lembrar que o sofrimento, embora muitas vezes inevitável, nunca é inútil. Cada lágrima pode regar sementes de sabedoria e cada queda pode nos ensinar a levantar com mais humildade e firmeza.
O Espiritismo também nos convida à compaixão. Se compreendemos que o sofrimento tem uma razão, isso não nos isenta do dever de acolher o outro com ternura e empatia. O verdadeiro espírita, segundo Kardec, é aquele que “reconhece-se pelo esforço que faz por domar suas más inclinações” — e uma dessas inclinações é a indiferença diante da dor do próximo.
A caridade, que é a base da Doutrina Espírita, se expressa em atitudes concretas: consolar, escutar, socorrer, amparar. Ao estendermos a mão ao irmão que sofre, aliviamos o fardo do outro e também encontramos sentido para nossas próprias dores. Um dos maiores consolos que o Espiritismo oferece está na certeza da imortalidade da alma. Sabemos que a vida continua além do túmulo, e que cada sofrimento aqui experimentado é passageiro diante da eternidade. A dor, por mais intensa, não é o fim: é um capítulo no livro da vida espiritual, que se escreve com amor, esforço e fé.
Ao compreendermos isso, adquirimos uma força serena para suportar as dificuldades e uma confiança renovada na justiça divina. Deus, que é Pai, jamais permitiria um sofrimento inútil ou injusto. Tudo tem um propósito no plano maior.
O Espiritismo não nega a dor, mas a ressignifica. Convida-nos a enxergá-la com os olhos do Espírito imortal, lembrando que “bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados” — como disse Jesus. A dor não é o fim, mas o meio. Não é castigo, mas lição. Não é abandono, mas amor em forma de oportunidade.
Que possamos, iluminados pela Doutrina Espírita, transformar nossa dor em aprendizado e nosso sofrimento em degrau para a luz.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002.
- Questões 132, 171, 258 e 262.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Capítulo V – “Bem-aventurados os aflitos”. Rio de Janeiro: FEB, 2002.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002.